Em conversa com a TV Câmara Santo André, o professor Enrique Staschower defende que tecnologia sem infraestrutura básica e sem participação popular aprofunda desigualdades em vez de reduzi-las.
O que faz de uma cidade uma cidade inteligente: a tecnologia ou as pessoas? A pergunta abriu o mais recente episódio do podcast da TV Câmara Santo André, que recebeu o arquiteto e urbanista Enrique Staschower, professor e coordenador adjunto do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Fundação Santo André. Para o entrevistado, a resposta não está nos equipamentos, mas no uso que se faz deles.
Tecnologia é meio, não finalidade
Staschower argumenta que cidades sempre foram inteligentes com as ferramentas de que dispunham em cada época, e que a novidade atual é a quantidade de informação gerada em tempo real. O problema, na avaliação dele, é que essa informação não circula por igual: a cobertura de redes é um serviço prestado por empresas, e não um serviço público universal, o que faz com que a tecnologia não esteja acessível a todos em todos os lugares.
Segundo o professor, Santo André reúne condições para avançar nesse campo, com capital humano e posição geográfica central no Grande ABC. O desafio, diz, é não confundir prioridades.
“Nenhum aplicativo vai substituir a falta de calçada, ou uma calçada que não seja acessível ao cadeirante, à mãe com carrinho de bebê e à senhora com andador.”
Enrique Staschower
Espaços luminosos e espaços opacos
Ao interpretar o conceito de “espaços luminosos e espaços opacos”, desenvolvido pelo geógrafo Milton Santos, o entrevistado explica como as desigualdades técnicas, informacionais e de infraestrutura se manifestam no território. Na leitura que faz da obra, as cidades nascem fracionadas e o lugar de origem funciona como um carimbo sobre as pessoas. A preocupação, afirma, é que o degrau entre bairros com infraestrutura e bairros sem infraestrutura se transforme em precipício, separando áreas de pertencimento e áreas de exclusão. Periferia, nessa chave, não é para ele uma questão de distância do centro, e sim de ausência de serviços.
O ponto de ônibus como medida de cidadania
Staschower usa o abrigo de ônibus como exemplo concreto. Para quem tem dificuldade de locomoção, visão ou audição, avalia, o equipamento atual funciona como um filtro que exclui parte dos cidadãos. Um ponto informativo, com aviso sonoro, sinalização luminosa e informação em braile sobre linha e tempo de espera, seria, na visão dele, um ganho direto de cidadania.
O tema ganhou contexto local em 7 de julho de 2026, quando a concessão, por 35 anos, do mobiliário urbano de Santo André foi leiloada na B3. A Eletromidia venceu o certame com proposta de outorga de R$ 18,5 milhões. O edital prevê R$ 257 milhões em investimentos ao longo da concessão, incluindo novos abrigos de ônibus, relógios digitais e outros equipamentos urbanos. Para o professor, precificar equipamentos urbanos abre uma janela de oportunidade para tratar de mobilidade, desde que a discussão sobre acessibilidade acompanhe a modernização.
Dados, código aberto e dependência de plataformas
Uma das preocupações centrais do entrevistado é a origem dos sistemas que coletam e processam dados urbanos. Ele defende o uso de soluções em código aberto e de mecanismos públicos de governança, armazenamento e controle dos dados urbanos, como forma de reduzir a dependência de plataformas proprietárias e fornecedores estrangeiros. Ao final da entrevista, cita o filósofo Michel Foucault e o conceito de governamentalidade para sustentar que a mediação por aplicativos pode naturalizar exclusões e conduzir comportamentos.
Clima: a urgência que não espera
O professor também associa cidade inteligente à capacidade de antecipar riscos climáticos, lembrando que enchentes, erosões e deslizamentos atingem de maneira mais severa comunidades instaladas em áreas vulneráveis. Dados oficiais reforçam a necessidade de planejamento: boletim interinstitucional divulgado em 1º de setembro apontou mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte entre setembro e novembro de 2026, com previsão de chuva acima da média em parte do Estado de São Paulo e temperaturas elevadas em praticamente todo o país. O documento, porém, não apresenta projeção específica para Santo André.
Onde a cidade se decide
Questionado sobre o ritmo dessas transformações, Staschower afirma que o problema não é se a cidade inclusiva será alcançada, mas em que velocidade. E aponta o instrumento: o Plano Diretor. O Estatuto da Cidade, Lei federal nº 10.257/2001, determina que a lei que o institui seja revista pelo menos a cada dez anos e exige, em sua elaboração e no acompanhamento da implementação, audiências e debates com participação popular, publicidade e acesso aos documentos produzidos.
Em Santo André, o Projeto de Lei nº 17/2026, que instituiu o novo Plano Diretor, foi aprovado em segunda votação pela Câmara em 30 de junho, durante a 40ª Sessão Ordinária, com 45 emendas parlamentares, após audiência pública realizada pela Casa em 19 de junho. Posteriormente, o texto foi sancionado como Lei municipal nº 10.996, de 21 de agosto de 2026.
“A Câmara é o lugar onde isso acontece. É onde se discute qual é a velocidade que queremos para ser inteligentes e inclusivos.”
Enrique Staschower
Uma herança de fluxos
Para o professor, a vocação tecnológica da região não é recente. Ele lembra a criação da Companhia Telefônica da Borda do Campo, fundada em Santo André em 1954 para ampliar os serviços de telefonia na região do ABC, como exemplo de uma ideia regional de infraestrutura anterior ao vocabulário atual de inovação. E defende que os espaços públicos, a praça, a feira, a biblioteca e o próprio Centro Cívico, continuem sendo lugares de encontro e debate, porque nenhuma plataforma digital os substitui.
O conjunto do Centro Cívico, projetado pelo arquiteto Rino Levi, já foi tema de outro episódio do podcast da TV Câmara com o mesmo entrevistado. Leia Paço Municipal de Santo André: como nasceu o Centro Cívico da cidade.
Perguntado sobre o legado que gostaria de ver em dez anos, resume: uma cidade equitativa, sem áreas de exclusão e sem espaços que segreguem por gênero, orientação sexual, raça ou religião.
Assista ao episódio completo no canal da TV Câmara Santo André no YouTube. Para consultar projetos, leis e a tramitação legislativa do município, acesse o portal Câmara Sem Papel.
Texto: Comunicação Institucional