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Sítio Tangará: a história por trás da Casa Amarela de Santo André

Em episódio do podcast da TV Câmara de Santo André, a arquiteta Ana Lara Bueno conta como uma antiga casa de veraneio do início do século XX se tornou um importante patrimônio preservado do município.

A Casa Amarela, hoje sede da reitoria do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA), guarda cerca de um século de memória andreense. Localizada no antigo Sítio Tangará, a edificação foi provavelmente construída entre as décadas de 1920 e 1930 e era utilizada como apoio ao campo de golfe da família de Charles Murray. O espaço remete a um período em que aquela região era marcada por chácaras de veraneio, áreas verdes e equipamentos de lazer.

A família Murray e a chegada ao ABC

Segundo a arquiteta e urbanista Ana Lara Bueno, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da FSA e representante da instituição no conselho municipal de defesa do patrimônio histórico, a Casa Amarela era a sede do antigo Sítio Tangará, pertencente à família Murray. De acordo com a pesquisadora, a família, de ascendência escocesa, teria chegado ao Brasil no fim do século XIX, no contexto da industrialização e da expansão ferroviária. Ainda segundo seu relato, o primeiro engenheiro da família a desembarcar atuava na área de saneamento urbano, mantinha residência fixa em Santos, perto do porto, e a família negociava café e operava com capital inglês emprestado ao país.

Um refúgio de veraneio: golfe, cavalgadas e lagos

O clima mais ameno atraía as elites para a região no verão. Conforme a entrevistada, a residência principal da família na cidade, chamada Vila Mimosa, ficava onde hoje está o Clube Primeiro de Maio, na Avenida Portugal. Já o Sítio Tangará era um espaço de lazer, com campo de golfe, cavalgadas e lagos ornamentais, próximo ao Ribeirão dos Meninos, na divisa com São Bernardo. A Casa Amarela ficava em terreno mais elevado, de onde se via o jogo de golfe abaixo, e era chamada pelos Murray de “club house”. Famílias próximas, como Simonsen, Cochran e Suplicy, mantinham chácaras vizinhas, unidas por laços de negócios e de casamento.

Da casa de campo a patrimônio público

Toda a região era rural, formada por sítios. O primeiro loteamento da área foi o Príncipe de Gales, e a cidade foi se expandindo a partir do centro, na região da Oliveira Lima e da antiga Estação São Bernardo, considerada o embrião de Santo André. Na década de 1950, após a morte do proprietário, Charles Murray, chegou a ser aprovado na prefeitura um loteamento batizado de Tangará, que não foi executado. A área foi desapropriada em 1964 e, posteriormente, passou a abrigar equipamentos públicos e institucionais, entre eles o campus da Fundação Santo André. Conforme a entrevistada, da época também restou a Igreja de São Carlos Borromeu e Santa Luzia, na Avenida Príncipe de Gales, cujo nome homenagearia os antigos donos do sítio, Charles e Lucy Murray.

Uma arquitetura de muitas influências

A Casa Amarela é de um período em que se misturavam estilos do passado, o chamado ecletismo. De acordo com Ana Lara Bueno, historiadores associaram a edificação, inicialmente, ao estilo Missões, de inspiração hispânica, mas pesquisas posteriores, citadas em palestra do historiador Paulo Del Priore, apontaram forte ligação com o Tudor Revival, de origem britânica. Segundo a arquiteta, o interior, com muita madeira escura trabalhada e uma lareira de pedra na atual sala da reitoria, remete a esse estilo inglês, enquanto a fachada combina referências do Missões e do neocolonial. Entre os detalhes originais, ela destaca a pesada porta de madeira e um vitral com as iniciais C e M, de Charles Murray. Os anexos ao redor, hoje ocupados por dependências da FSA, foram projetados pelo arquiteto Jorge Bomfim, da escola paulista.

Patrimônio tombado e a importância de preservar

Tombada como patrimônio cultural de Santo André, com homologação em 2011, a Casa Amarela tem proteção voltada à preservação integral da edificação e de seus elementos históricos. A arquiteta a cita como exemplo de reaproveitamento bem-sucedido de um bem histórico. Pela teoria do restauro, explica, um prédio antigo deve receber um uso compatível com suas características, para que possa ser preservado sem grandes modificações, exatamente o que ocorreu na transformação da antiga casa de lazer em sede administrativa.

É um testemunho vivo de toda a história do ABC e de Santo André.

Ana Lara Bueno, arquiteta e urbanista

Para a entrevistada, conhecer essa história ajuda o andreense a reconhecer suas raízes e a entender como a região se transformou ao longo do último século.

Assista ao episódio completo do podcast no canal da TV Câmara de Santo André no YouTube e conheça outras histórias do patrimônio da cidade.

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