Inteligência artificial: o que é, como usar com consciência e por que a educação é o caminho
Em podcast da TV Câmara, professor da Fundação Santo André explica como a tecnologia funciona e alerta para os riscos do uso sem equilíbrio
Ela já faz parte do dia a dia de milhões de pessoas, mas ainda gera dúvidas, receios e muitos equívocos. A inteligência artificial deixou de ser um tema restrito à academia e hoje está ao alcance de qualquer pessoa com um celular. Mas afinal, o que ela é de verdade? E como usá-la sem perder o que temos de mais humano? Para responder a essas perguntas, o podcast da TV Câmara de Santo André recebeu o professor mestre Leonardo Arruda Lopes, especialista em física teórica e docente da Fundação Santo André.
O que é inteligência artificial
Apesar do nome sugestivo, a inteligência artificial não pensa como um ser humano. Segundo o professor Leonardo, muitas das ferramentas atuais funcionam com base em métodos estatísticos aplicados à computação, capazes de identificar padrões em grandes volumes de dados. “Inteligência artificial nada mais é do que probabilidade e estatística aplicada a métodos computacionais”, explicou.
Na prática, ferramentas como o ChatGPT funcionam com base em densidades de probabilidade. “Se você perguntar qual é a cor do céu, ele vai falar que é azul. Por quê? Na internet, no conhecimento que tem disponível nos livros, é quase unanimidade que as pessoas dizem que o céu é azul. Então, a maior probabilidade de uma resposta correta é dizer que o céu é azul”, exemplificou o professor. Esses sistemas não compreendem o conteúdo da mesma forma que uma pessoa: eles produzem respostas a partir de padrões aprendidos em grandes bases de dados, o que exige uso crítico e checagem das informações.
Uma tecnologia que não é nova
Embora tenha ganhado grande popularidade a partir de 2022, com o lançamento do ChatGPT, a inteligência artificial tem raízes muito anteriores. Alan Turing, matemático britânico que também teve papel importante na quebra de códigos durante a Segunda Guerra Mundial, foi um dos pioneiros nas reflexões sobre computação e inteligência de máquinas.
Nos anos seguintes, a pesquisa se expandiu gradualmente, passando de grupos militares e acadêmicos restritos para uma adoção mais ampla. Nos anos 90, dissertações e teses já utilizavam esses métodos. A partir de 2022 e 2023, ferramentas como ChatGPT, Gemini, Copilot e outras plataformas de IA generativa passaram a alcançar o grande público.
Por que a IA se popularizou agora
O professor Leonardo apontou três fatores principais para a popularização dessas ferramentas. O primeiro é técnico: os modelos de inteligência artificial precisam de grandes volumes de dados para aprender. “Chegou num limite do quanto tinha de conhecimento dentro da internet ou nos livros. Precisava de mais, principalmente para reconhecer padrões humanos, a dinâmica humana na sociedade”, explicou. Disponibilizar a tecnologia para milhões de usuários é uma forma de retroalimentar esses sistemas.
O segundo fator é financeiro. Manter a infraestrutura necessária para essas plataformas, com servidores, processadores e refrigeração, é extremamente caro, e os pacotes pagos ajudam a sustentar essa operação. O terceiro fator, segundo o professor, é o uso militar, já que o desenvolvimento tecnológico historicamente caminha junto com aplicações de defesa.
Os limites éticos do uso
Um dos pontos mais relevantes da entrevista foi a reflexão sobre ética e responsabilidade. O professor Leonardo utilizou uma analogia para ilustrar a questão: “O martelo é uma ferramenta excelente para pregar um prego, mas você também pode usar esse martelo e dar na cabeça de alguém. A inteligência artificial vai funcionar da mesma forma. Ela pode ser usada para coisa ruim? Pode. Ela é ruim? Não, ruim é a pessoa que utilizou ela.”
Ele também alertou para práticas arriscadas, como utilizar ferramentas automatizadas para interpretar exames de saúde ou substituir o acompanhamento de profissionais qualificados. “Um psicólogo de ChatGPT não vai conseguir compreender as nuances humanas que um psicólogo formado, experiente, olhando para a pessoa, tendo aquele contato humano, vai conseguir notar”, afirmou. Para o professor, a IA pode auxiliar em dúvidas iniciais, mas não deve substituir avaliação médica, psicológica ou técnica especializada.
O risco da dependência
Outro alerta feito durante o podcast diz respeito à dependência excessiva da tecnologia. O professor relatou que alguns de seus alunos afirmam utilizar inteligência artificial em 100% das tarefas profissionais. “E se o ChatGPT deixar de existir, o que sobra da pessoa?”, questionou.
Ele citou um estudo acadêmico que comparou grupos de participantes na produção de textos com diferentes níveis de apoio tecnológico: sem ferramentas, com mecanismos de busca e com inteligência artificial. Segundo o professor, os resultados indicariam maior engajamento cognitivo no grupo que realizou a tarefa sem auxílio automatizado. Já o grupo que utilizou inteligência artificial teria entregado um resultado que ele descreveu como “extremamente superficial e sem alma”.
Equilíbrio e hábitos conscientes
Para o professor Leonardo, o caminho não é rejeitar a tecnologia, mas recuperar hábitos que exercitem o pensamento. Em vez de perguntar o significado de uma palavra ao ChatGPT, abrir um dicionário. Em vez de terceirizar toda a escrita, praticar a redação própria. “Para tarefas que são boas para o meu cognitivo, para a minha plasticidade cerebral, é melhor eu usar o meio tradicional, que deu muito certo”, afirmou.
Ele comparou a questão com hábitos alimentares: “Sua avó comeria isso? Se sua avó não comeria, então acho que não é legal você comer. Com relação à inteligência artificial é a mesma coisa”, disse. Assim como evitamos alimentos ultraprocessados em favor de uma alimentação mais natural, deveríamos buscar formas mais “orgânicas” de aprender e trabalhar, usando a inteligência artificial como complemento, não como substituto.
O papel da educação e do legislativo
Questionado sobre como o poder legislativo pode contribuir para o uso consciente da inteligência artificial, o professor foi enfático ao defender a educação como base. “Acredito que o ensinamento desse uso consciente tem que partir desde muito cedo dentro da escola, com professores ensinando a como usar de forma consciente, a não substituí-los, mas sim como ferramenta para melhorá-los”, disse.
Segundo ele, é na infância e na adolescência que se moldam a ética e o caráter de uma pessoa, e é nessa fase que o pensamento crítico sobre o uso de tecnologia precisa ser construído, para que os jovens se tornem adultos responsáveis e não dependentes dessas ferramentas.
O professor também destacou que há dimensões humanas, como a subjetividade, a sensibilidade estética e o pensamento abstrato, que não podem ser reduzidas com facilidade a padrões computacionais. “O computador não vai conseguir fazer algo que é inerente do ser humano, que é o pensamento abstrato. Nós conseguimos olhar para uma obra de arte e perceber se o artista estava com raiva, feliz ou triste. A gente consegue retirar conhecimento daquilo”, explicou.
O professor encerrou a entrevista reforçando o valor insubstituível de cada pessoa: “Eu sempre tento fazer com que meus alunos saibam que eles são insubstituíveis. Não vai existir outro ser humano igual a eles. Existem seres humanos que podem fazer as mesmas coisas, mas não igual a eles”. E deixou uma reflexão final: “Tecnologia existe para nos servir, não para nós servirmos ela.”
A Câmara Municipal de Santo André promove, por meio do podcast da TV Câmara, debates sobre temas que impactam o cotidiano do cidadão andreense. Acompanhe os próximos episódios pelo canal no YouTube.
Assista à entrevista completa no canal da TV Câmara de Santo André no YouTube.