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CRAS: o que é, como funciona e por que você deve conhecer esse serviço em Santo André

Quando se fala em assistência social, muita gente ainda pensa apenas em cadastro para o Bolsa Família. Mas o trabalho realizado nos Centros de Referência de Assistência Social, os CRAS, é bem mais amplo do que isso. Santo André conta com unidades de CRAS distribuídas pelo município, com atendimento gratuito, preparadas para acolher qualquer cidadão que esteja passando por uma situação de vulnerabilidade, seja ela econômica ou social. Em entrevista ao podcast da TV Câmara de Santo André, a diretora da proteção básica da Assistência Social, Sueli Heiter, explicou como o serviço funciona na prática.

O que é o SUAS e como ele se organiza

A assistência social no Brasil é organizada pelo Sistema Único de Assistência Social, o SUAS. Segundo Sueli Heiter, o modelo é inspirado no SUS. “É uma política inspirada no Sistema Único de Saúde. Então é um pouco mais fácil de identificar essa política se a gente comparar com o SUS”, explicou.

Assim como o SUS tem diferentes níveis de atendimento, o SUAS organiza a proteção social em dois grandes níveis: Proteção Social Básica e Proteção Social Especial. A Proteção Social Básica, representada pelos CRAS, atua de forma preventiva, antes que situações de violência ou violação de direitos se instalem. Já a Proteção Social Especial, estruturada em serviços de média e alta complexidade, é acionada quando essas situações já existem.

Assistência social não é só renda

Um dos pontos centrais da entrevista foi desmistificar a ideia de que o CRAS atende apenas pessoas em situação de pobreza. Sueli foi enfática: “A vulnerabilidade não é só a renda, não é só econômica, ela também é social.” Situações de isolamento social, violência doméstica, preconceito, machismo, discriminação racial, todas essas são razões legítimas para procurar o serviço, independentemente da faixa de renda.

“Quando a pessoa tem uma situação dentro do âmbito familiar e não sabe quem procurar, a minha orientação é: procure o CRAS. Mesmo que você não tenha certeza se é ali, ali você vai ter a orientação de onde é”, destacou a diretora.

Como funciona o atendimento

O principal serviço oferecido pelo CRAS é o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família, o PAIF. Ao chegar à unidade, a pessoa passa por uma recepção e é convidada a participar de acolhidas coletivas, onde conhece o que o serviço oferece. Se fizer sentido para ela, o atendimento avança para uma escuta individualizada, conduzida por profissionais de nível superior, como psicólogos e assistentes sociais.

“A escuta é sigilosa. Esses profissionais têm a competência técnica de fazer uma escuta sem preconceito, sem julgamento, e fazer uma análise daquilo que a família está trazendo”, explicou Sueli.

A diretora ressaltou que o trabalho vai além da demanda imediata. Muitas vezes, uma mãe procura o CRAS porque precisa de ajuda para comprar leite para o filho, mas a equipe identifica que por trás dessa necessidade há questões mais profundas, como falta de rede de apoio familiar, dificuldade de inserção no mercado de trabalho ou histórico de violência. “A gente costuma falar que a pessoa sabe a ponta do iceberg. Com o acompanhamento, a gente consegue fazer um resgate dessa situação”, afirmou.

O poder do atendimento coletivo

Uma característica marcante do trabalho nos CRAS é a prioridade dada ao atendimento coletivo em vez do individual. A lógica, segundo Sueli, é que os problemas vividos pelas famílias geralmente não são isolados, mas compartilhados pelo território. “Você vem para mim com esse problema, só que você não sabe que a maioria das pessoas que mora ali do seu lado tem o mesmo problema. Se ele é coletivo, as soluções têm que ser coletivas”, explicou.

Nos grupos, as pessoas têm o direito de falar, de ser ouvidas e também de não falar, se não se sentirem à vontade. Com o tempo, os próprios participantes vão formando uma rede de apoio entre vizinhos, trocando experiências e soluções.

Crianças e adolescentes: o serviço de convivência

Enquanto o CRAS trabalha com os adultos da família, as crianças e adolescentes podem ser encaminhados para o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, executado por organizações da sociedade civil em parceria com a Prefeitura. Sueli fez questão de esclarecer que esse serviço não é um contraturno escolar. Segundo a diretora, crianças e adolescentes não participam do serviço para realizar atividades escolares, mas para fortalecer vínculos familiares e comunitários, desenvolver autonomia e ampliar o acesso a direitos.

Uma história que ilustra o trabalho

Sueli compartilhou um caso que vivenciou quando atuava como técnica em um CRAS. Uma mãe procurou a unidade por causa do benefício bloqueado do Bolsa Família, mas durante o atendimento a equipe percebeu que o filho adolescente de 14 anos vivia em isolamento severo. “Ele não saía de casa nem para colocar o lixo lá fora. Quando saía, era correndo à noite, com uma jaqueta que tampava todo o rosto”, relatou.

A equipe descobriu que o rapaz gostava de desenhar e, a partir dessa afinidade, conseguiu criar um vínculo com ele. Aos poucos, ele foi inserido no Serviço de Convivência, passou a fazer amizades, desenvolveu atividades artísticas, retomou os estudos e recebeu apoio para fortalecer os vínculos familiares. “Para uma pessoa que não saía de casa nem para levar o lixo, a gente começou a vê-lo em locais da cidade como teatro, cinema. Foi inserido em curso profissionalizante e daí só cresceu”, contou Sueli. “A vitória não é nossa, é da família. A gente só apoiou.”

Como procurar o CRAS

Santo André conta com unidades de CRAS distribuídas pelo município, além de centros de apoio social voltados a regiões mais distantes, como Parque Andreense e Paranapiacaba. O atendimento funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Todos os serviços são gratuitos, e o CRAS pode orientar o cidadão sobre benefícios, direitos e encaminhamentos para a rede socioassistencial. Em caso de dúvida, o cidadão pode procurar diretamente a unidade de referência ou consultar a Prefeitura sobre a forma de atendimento.

Sueli deixou um recado direto para o cidadão: “Na dúvida, vá até um CRAS. Se você escuta uma criança gritando, se vê uma pessoa idosa em situação de isolamento ou aparente vulnerabilidade, se acha que tem alguma coisa errada, procure atendimento. Nós vamos passar as orientações, vamos trazer vocês para discutir junto essa situação.”

Ela reforçou que o CRAS não resolve problemas por conta própria, mas constrói caminhos junto com a família. “O que importa é que as famílias em situação de vulnerabilidade não sejam prejudicadas ainda mais porque não conseguem acessar os seus direitos.”


A Câmara Municipal de Santo André promove, por meio do podcast da TV Câmara, debates sobre temas que impactam o cotidiano do cidadão andreense. Acompanhe os próximos episódios pelo canal no YouTube.

Assista à entrevista completa no canal da TV Câmara de Santo André no YouTube.

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