Em episódio do podcast da TV Câmara, o professor Henrique Stachov revela como nasceu um dos conjuntos arquitetônicos mais importantes do ABC Paulista
O Centro Cívico de Santo André, onde funciona a sede da Câmara Municipal desde o fim da década de 1960, é muito mais do que um endereço administrativo. Tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico do Estado de São Paulo (Condephaat) e em âmbito municipal pelo COMDEPHAAPASA, o complexo reúne as sedes do Legislativo e do Executivo municipais, além do Fórum, e equipamentos culturais como o Teatro Municipal e a Biblioteca Pública. No mais recente episódio do podcast da TV Câmara, o professor e pesquisador Henrique Stachov, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Fundação Santo André, contou a trajetória do projeto e explicou por que ele continua relevante para a vida da cidade.
Um concurso nascido do entusiasmo nacional
O Centro Cívico surgiu de um concurso promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em um período de grande otimismo no país. O Brasil havia conquistado a Copa do Mundo em 1958 e repetiria o feito em 1962; Brasília acabara de ser inaugurada sob o lema “50 anos em cinco”. Nesse contexto, o arquiteto Rino Levi venceu o concurso com uma proposta que ia além do modelo adotado na capital federal.
Para Stachov, enquanto a Praça dos Três Poderes de Oscar Niemeyer reunia os edifícios institucionais em uma praça seca e monumental, Rino Levi imaginou um espaço que integrasse governo, cultura, educação e convívio, permeado por paisagismo e aberto à circulação de pedestres.
Rino Levi e a Escola Paulista de Arquitetura
Brasileiro formado em Milão na década de 1920, Rino Levi trouxe para o Brasil a precisão técnica da tradição italiana aliada à ousadia da Escola Paulista de Arquitetura. Sua experiência com projetos de cinemas e teatros, como o Teatro Cultura Artística em São Paulo, lhe deu domínio sobre soluções acústicas que foram incorporadas tanto ao Plenário da Câmara quanto ao Teatro Municipal do Centro Cívico.
Stachov destaca que Rino Levi era detalhista ao extremo, especificando desde os parafusos da estrutura até os mármores e granitos importados da Itália.
O paisagismo de Burle Marx e o Monumento ao Trabalhador
O projeto paisagístico ficou a cargo de Roberto Burle Marx, artista plástico que trabalhava em estreita parceria com Rino Levi. Segundo o professor, Burle Marx concebeu um paisagismo que combina o traçado reticulado da tradição francesa com formas orgânicas tipicamente brasileiras. O mosaico português, o espelho d’água e as curvas que conduzem o visitante entre os edifícios unificam o percurso entre o Fórum, a Prefeitura, a Câmara, a biblioteca e o teatro.
Após a morte de Rino Levi, Burle Marx teve papel importante na continuidade e no acabamento de elementos artísticos e paisagísticos do conjunto, incluindo autorrelevos na biblioteca e uma tapeçaria no edifício do Executivo.
O Centro Cívico conta ainda com o Monumento ao Trabalhador, escultura em forma de fita assinada por Tomie Ohtake, instalada em 2013 ao lado da Câmara Municipal e do espelho d’água, em homenagem à classe trabalhadora andreense.
A Câmara Municipal: um edifício pensado para o cidadão
Um dos aspectos que mais chamam a atenção no edifício da Câmara é o fato de ele ser “solto do chão”, apoiado sobre pilotis que permitem a passagem livre de pedestres por baixo da estrutura. O professor explica que esse desenho traduz um princípio de acessibilidade e transparência: a entrada da Câmara é mais aberta e permeável que a do edifício do Executivo, convidando o cidadão a se aproximar.
Internamente, cinco escadas conduzem a diferentes setores, segmentando a área administrativa (de livre acesso), os gabinetes dos vereadores (protegidos por brises-soleil que criam sombreamento e privacidade) e o Plenário, iluminado por cima e desenhado para favorecer a acústica e o debate circular entre os parlamentares.
O Artigo 1º do Regimento Interno da CMSA registra que a Câmara Municipal tem sede em “edifício próprio, sito no Centro Cívico de Santo André”, reforçando a identidade entre a instituição legislativa e o espaço que a abriga.
Santo André ao redor do Centro Cívico
Stachov lembra que, antes do concurso, o terreno era uma praça seca. Nas décadas de 1920 e 1930, a região era ocupada por chácaras de famílias que subiam de Santos em busca dos ares da serra.
Com a consolidação de Santo André como polo urbano e industrial do ABC ao longo do século XX, especialmente após a transferência da sede municipal para Santo André no fim da década de 1930 e os desmembramentos que deram origem a outros municípios da região, o local passou a representar uma área estratégica de centralidade administrativa, no vértice dos caminhos que conectavam Santo André, São Caetano e São Bernardo. O Centro Cívico materializou essa centralidade, concentrando as funções públicas em meio à consolidação de Santo André como importante polo industrial do ABC.
Um patrimônio para ser usado
Ao encerrar o podcast, o professor deixou uma mensagem direta: preservar o Centro Cívico não significa colocá-lo em uma redoma de vidro, mas usá-lo.
“É usá-lo como lugar de encontros, como lugar de reivindicações e como lugar de cultura.”
— Henrique Stachov, professor e pesquisador da Fundação Santo André
Stachov destaca que a praça entre os edifícios segue sendo palco de manifestações, celebrações e eventos culturais, exatamente como Rino Levi havia imaginado.
Assista ao episódio completo do podcast da TV Câmara no canal da Câmara Municipal de Santo André no YouTube. Para conhecer pessoalmente o Centro Cívico, as sessões da Câmara acontecem toda terça-feira às 9h e às 15h e são abertas ao público.